sexta-feira, 27 de maio de 2011

Como os britânicos inventaram o montanhismo moderno

Esta matéria não foi escrita por mim. Foi pesquisada, elaborada e escrita por um conhecido do summitpost.org, Koen Van Locke. Tudo que eu fiz foi traduzir.

A primeira parte já foi publicada no alta montanha, e a segunda parte será publicada lgoo logo. Como fiz na pressa agora revisei e já publico aqui a versão full do trabalho. É uma leitura extremamente interessante! Deixe de ser preguiçoso (a) e perca meia horinha lendo, vai curtir!

"Como os britânicos inventaram o montanhismo moderno

Montanhismo, caminhadas na montanha ou simplesmente estar nas montanhas exerce para muitos de nós um papel importante em nossas vidas. O site www.summitpot.org, o número de membros (54.000 e crescendo) e inúmeras contribuições que recebe diariamente ilustram isso muito bem. Durante cerca de dois séculos as pessoas foram atraídas pelas montanhas, assim como nós vivemos isto hoje.


Matterhorn. Foto: Koen Locke


No entanto, nem sempre foi assim. Pelo contrário, na maior parte do tempo na história as pessoas se demonstraram hostis em relação às montanhas e tentaram evitá-las a todo custo. Mas, no final do século XVIII, essa imagem hostil das montanhas começou a mudar gradualmente. As pessoas (principalmente das classes sociais mais favorecidas) começaram a olhar diferentemente para as montanhas e começaram a visitá-las ocasionalmente. Visitavam as montanhas, mas sempre a uma distância considerada segura, nos vales de montanha. Neste momento certamente não escalaram montanhas. Apenas alguns cientistas e algum “romântico solitário” subiu esta ou outra montanha durante este período (a partir do final do século XVIII até meados da década de 1850). Não é portanto possível, neste período, falar do “montanhismo” como conhecemos hoje. Montanhismo moderno não existia ainda. No entanto, a partir do 1850, vemos o montanhismo aparecendo nos Alpes. Mas então a pergunta vem à mente, de onde vem o montanhismo moderno? Quem começou e por que começam a escalar? É sobre este ponto que o artigo trata. É sobre quem e principalmente, porque o montanhismo moderno foi criado. É uma questão importante, como no passado, as pessoas que sempre pareceram muito negativas em relação às montanhas, o motivo pelo qual isto mudou e o que veio com a idéia do montanhismo.

Os Britânicos entram em cena

A partir da década de 1850 cada vez mais britânicos foram para os Alpes e começaram a escalar explorando e conquistando as altas montanhas alpinas. Antes da década de 1850 os britânicos raramente visitaram os Alpes, e quando o fizeram era ainda mais raro ver um deles subindo uma ou outra montanha. Mas isso não foi apenas o caso de britânicos, montanhismo em geral era raro, algo que foi reservado a um pequeno grupo de cientistas que escalava para explorar os Alpes e fazer várias pesquisas científicas sobre temas como a glaciologia, botânica, geologia, cartografia, etc. Sua característica principal era que eles não escalavam por prazer, por esporte ou em busca de aventura (embora estes possam e certamente ter sido outras razões), mas que eles escalavam em nome da ciência. Entre cientistas os britânicos eram poucos, como por exemplo John Ball ou James Forbes. A partir do final do século 18 até meados do século 19 eram principalmente suíços, italianos e alguns cientistas franceses que dominaram o “montanhismo científico”, homens como Gottlieb Studer, Louis Agassiz, a família Meyer, Desor, F. J. Hugi, P. Giordani, G. Gnifetti, João Vicente... A presença desses italianos ainda pode ser vista em vários nomes da cadeia de Monte Rosa, na fronteira suíço-italiana.

Mas, em meados do século XIX, algo muito estranho aconteceu nos Alpes. Desse momento em diante alpinistas britânicos da classe média começaram a viajar para os Alpes. Não apenas por viajar, ou para estar nas montanhas com objetivo de apreciar a vista, mas para escalar as montanhas. Por si só isso não pode realmente ser chamado de estranho ou notável, porque durante décadas antes outras pessoas (cientistas, principalmente) também subiram algumas montanhas. A chegada de montanhistas britânicos certamente pode ser chamado de notável devido ao seu número e sua motivação para o alpinismo. Primeiro, o número de alpinistas britânicos excedeu o número de alpinistas no início de longe (de antes da década de 1850), e segundo, porque não escalaram somente para fins científicos, mas por razões completamente diferentes.

Como já foi dito, a partir da década de 1850 alpinistas britânicos “descobriram” os Alpes. Muito rapidamente e por várias razões, estes alpinistas britânicos ganharam uma posição dominante nos Alpes. No período de 1850-1860 a maioria dos escaladores era inglesa. Vamos voltar no tempo e estaremos olhando como alpinistas britânicos conseguiram tornar-se tão dominantes nos Alpes durante os anos 1850 e 1860 e, em primeiro lugar, porque passaram a explorar, a escalar, e de uma certa forma conquistar os Alpes. Por que "inventar" montanhismo moderno?

Por que foram pros Alpes?

Agora observemos os alpinistas ingleses que chegaram aos Alpes e porque começaram a escalar praticamente todos os picos mais elevados, é importante notar o que se entende quando se fala de montanhistas britânicos. Isto porque estes alpinistas não vieram de todos os estratos da sociedade britânica. Ao olhar para o contexto social destes alpinistas, fica claro que nenhum membro da classe inferior ou superior era alpinista, mas que todos eles eram membros da classe média, mais especificamente da classe média alta. Esta classe (superior) média foi crescendo rapidamente durante a primeira metade do século XIX. Principalmente graças à Revolução Industrial, que tornou possível para o setor terciário se desenvolver fortemente, com o crescimento de uma classe média relativamente nova como conseqüência. O fato de que a maioria dos alpinistas britânicos serem desta classe pode ser facilmente demonstrado quando se olha para a composição do Clube Alpino (fundado em 1857). Importante dizer que nem todos os alpinistas eram membros do Clube Alpino. No entanto, parece claro que quase todos os montanhistas foram membros da classe média alta. Esta observação sobre a composição social do Clube Alpino e do montanhismo britânico em geral é importante porque o contexto social destes alpinistas significou uma grande motivação para eles irem aos Alpes, escalarem muitas montanhas e, de certa forma, inventarem o montanhismo moderno como será explicado mais tarde.


Composição social do Clube Alpino. Pesquisa Koen Locke.


Em alguns outros países a mesma tendência pode ser vista, apesar desta tendência só acontecer muito tempo depois (1870, 1880). Em outros países como por exemplo a Áustria e a Alemanha não era esse o caso. As associações alpinas alemã e austríaca continham membros com diferentes origens sociais. Não eram membros da classe média, mas havia membros de classe inferior e superior também. Isso foi possível porque os membros não precisavam ter grandes façanhas. Todo mundo foi capaz de se associar, não houve qualquer restrição relacionada a esporte ou classe social. Graças a isso, essas associações alpinas poderiam se transformar em um movimento de massas. Isso, no entanto, não poderia ser dito sobre o Clube Alpino.

É importante salientar que o Clube Alpino (ao contrário de outras associações alpinas) foi uma associação muito estrita e elitista (como era comum com a maioria da sociedade britânica). Era um grupo muito seleto e se tornar um membro não era nada fácil. Certamente, durante os primeiros anos do Clube Alpino se tornar um membro era bastante difícil. Ao contrário de outras associações alpinas, o Clube Alpino usou várias regras que um candidato a membro tinha de cumprir. Regras como "um candidato não é elegível a menos que ele tenha subido ao topo de uma montanha de 13.000 pés (3.962 metros) de altura." Regras como essas tornaram impossível para homens que não tinham escalado nos Alpes se tornar membro. Além disso, o fundo social de um futuro membro era pelo menos igualmente importante relacionado com essas regras do montanhismo. A importância do contexto social é representada por uma série de regras de admissão. Não só montanhistas atuantes poderiam ser eleitos para integrar o Clube Alpino, mas também aqueles que "mostravam a sua devoção aos alpes...se por atividade literária, científica ou artística", excluindo, portanto, de antemão, ambos os membros de classes inferiores e superiores. Como foi frequentemente o caso na Grã-Bretanha com muitas associações. Esta exclusividade social do Clube Alpino era, como veremos mais adiante, muito importante. Em suma, a razão para isso era que "ao contrário dos clubes continentais, o seu objetivo era em grande parte, social."

A "invenção" do montanhismo por britânicos não surgiu do nada. Agora vamos analisar as razões dos britânicos em começar a escalar montanhas de uma forma que era muito diferente da comunidade científica e romântica do "pré-alpinismo", como existia desde o final do século XVIII até meados do século XIX. Os primeiros montanhistas britânicos tinham razões diferentes para ir aos Alpes e escalar quase todos os altos picos alpinos. As primeiras embora muito importantes razões têm a ver com a posição social da classe média alta e mais especificamente com a exclusividade do Clube Alpino. Outras razões têm de estar situadas dentro de uma espécie de Revolução Atlética (crescente importância dos esportes em geral), ou estão relacionados com a Revolução Industrial ou motivos pessoais.

Como foi dito a maioria dos montanhistas pioneiros (como Leslie Stephen, John Tyndall, Tuckett FF, Kennedy ES, a família Mathews, Hudson C., Hinchcliff TW, AW Moore, Wills Alfred, Albert Smith, etc) foram da classe média alta. Esta classe era uma classe relativamente nova. A fim de ampliar e reforçar a sua posição social era importante para eles distingui-se não só das classes mais baixas, mas de classes mais altas também. Para fazer isso, eles criaram uma nova identidade de classe. Não é baseada na identidade e cultura das classes mais altas, como os industriais e nobres, mas uma nova identidade completamente diferente. Essa identidade parece ser a força motriz por trás de montanhismo. Importante notar que havia uma interação contínua entre montanhismo e essa nova identidade de classe média. Sem essa identidade, o montanhismo provavelmente nunca teria sido criado pelos britânicos. Então, graças a esta, um “solo fértil” foi feito para o alpinismo se desenvolver. Por outro lado, montanhismo desempenhou um papel bastante importante dentro desta. Foi simplesmente uma perfeita encarnação dessa identidade, uma relação simbiótica.

Resumindo, essa identidade foi baseada principalmente em dois conceitos: masculinidade e imperialismo (combinado com a exploração). Dois conceitos que não podem ser vistos separados um do outro. A ênfase na masculinidade tem que ser vista principalmente de uma maneira que os ingleses queriam: "defender o sentido imaginado do poder imperial da Grã-Bretanha”.

O imperialismo com certeza foi proeminente visto que a Grã-Bretanha tinha o maior império colonial do mundo, e os membros da classe média queriam manter sua imagem, e queriam expandi-la para além de suas colônias. As montanhas seriam o lugar perfeito para colocar esta identidade em prática. O Alpinismo ajudou a legitimar a exploração e a ampla expansão imperial, transformando o imperialismo de uma abstração em algo tangível e de fácil acesso para homens profissionais e ambiciosos. A importância da exploração e do imperialismo pode ser facilmente exemplificada durante a leitura de alguns livros de viagem de montanha da época. Palavras como "conquistar" ou "vitória" ou "derrota" dentre outras palavras de façanhas militares eram muito comuns nos relatos de escaladas.

Por exemplo, James Forbes: "Uma viagem aos Alpes é talvez a maior aproximação a uma campanha em que o cidadão comum tem uma chance de reunião. Ele tem algumas das excitações, e muitas das dificuldades e privações da guerra, sem nenhuma das suas características repugnantes e terríveis. Ele combate apenas os elementos, as tempestades, só as fortalezas da natureza, mas ele tem sempre em sua mente a consciência do poder pelo qual ele está cercado, e às vezes fica intimidado”.

Os Alpes tornaram possível para os homens normais começar a explorar e até mesmo conquistar-se. Os Alpes, como terra incognita, ainda tinha que ser explorado e conquistado. “Viagens alpinas nos meus dias [de 1850] era particularmente excitante porque os Alpes estavam sendo explorados pela primeira vez. Seguimos a conquista dos picos e de novos passos assim como agora seguimos os passos de Shackelton no Pólo Sul e Nansen no Pólo Norte." Esse seria o impulso para a exploração que levou os britânicos, antes de outras nações, rumo a outras cadeias montanhosas que não as européias no final do século XIX.

O Montanhismo era baseado na masculinidade e do imperialismo, e isso tem que ser visto dentro da identidade de classe média recém-criada. Alpinismo era uma perfeita encarnação dessa identidade. Uma identidade utilizada para se distinguir das outras classes sociais na Grã-Bretanha, e assim o mesmo pode ser dito para o montanhismo. Montanhismo como uma forma de criar barreiras sociais fortes. As barreiras sociais que eram necessárias para a classe média construir e conservar a sua forte posição social na sociedade britânica. Por várias razões o montanhismo conseguiu ser uma atividade quase que exclusivamente de classe média alta. Mas deve ser registrado que o montanhismo não foi na verdade criado com o objetivo direto de se distinguir das outras classes sociais na Grã-Bretanha. Muitos dos pioneiros do montanhismo começaram a escalar por causa deste imperialismo e da masculinidade, que foram amplamente presentes no alpinismo. O montanhismo foi preservado para a classe média por várias razões, a consequência indireta do montanhismo é que ele ajudou a criar fortes barreiras sociais entre a classe média e as outras classes. Ele ajudou a classe média (mais especificamente da classe média alta) a construir uma forte identidade, que foi utilizada para uma melhor distinção entre ela e as outras, e assim reforçar a sua posição dentro da sociedade britânica.

As pessoas não escalavam com o objetivo de se distinguirem dos outros, mas eles escalavam por causa dessa masculinidade e do imperialismo, e algumas outras razões que serão discutidas posteriormente, e como conseqüência eles se distinguiam dos demais. Portanto o montanhismo ajudou a construir esta identidade de classe média e da exclusividade social associada, que pode facilmente ser vista quando se olha para a composição social do Clube Alpino e a política para aceitação de membros já citados.


Albert Smith. Foto: Wikipedia


Como acabamos de ver, de certa forma o montanhismo surgiu como uma ferramenta para a classe média alta se distinguir das outras classes sociais na Inglaterra vitoriana (embora essa distinção social não era realmente o propósito do montanhismo, foi uma conseqüência muito importante). No entanto, o montanhismo também pode ser visto de uma maneira completamente diferente, totalmente oposta à forma como temos observado até agora. Alpinismo não como uma forma de criar fortes barreiras sociais, ou para enfatizar as diferenças entre classes, mas simplesmente como uma forma de escapar do rigoroso sistema social. Nos Alpes, montanhistas britânicos de classe média alta podiam desfrutar de uma liberdade que não havia na Grã-Bretanha. Graças a esta rota de escape, o rigoroso sistema social na Grã-Bretanha tornou-se mais habitável para (alguns) membros da classe média alta britânica. Como eles poderiam eventualmente fugir dele, foram capazes de dar mais ênfase a essas diferenças sociais quando voltavam à Grã-Bretanha.

Esta teoria pode ser comprovada em como montanhistas britânicos se misturavam com os guias de montanha que frequentemente contratavam quando escalavam nos Alpes. Estes guias de montanha eram principalmente (se não todos) das classes mais baixas. Ciente agora das primeiras razões seria de esperar que alpinistas britânicos olhassem para eles de forma semelhante à maneira como olharam e agiram com as classes mais baixas em seu país. No entanto, não parecia ser assim. Muitos nontanhistas viam seus guias de montanha como iguais e, em suma, as barreiras sociais foram, em grande parte, destruídas por dentro do mundo do montanhismo. O fato é que nos Alpes essas barreiras sociais não teriam sido tão presentes como na Grã-Bretanha, poderíamos concluir que de uma forma alpinismo foi criado como uma forma de escapar do rigoroso, vigoroso sistema social na Grã-Bretanha.

Estas primeiras razões foram estritamente relacionadas a motivos sociais para muitos membros da classe média começarem a "conquistar" os Alpes e, portanto, iniciando com algo que acabaria por levar ao montanhismo moderno como hoje é hoje. A próxima razão é ainda relacionada ao aspecto social da vida na Inglaterra vitoriana, mas não tão restrita como as razões apresentadas até então. Esta é sobre a importância do esporte e lazer na Grã-Bretanha no século XIX. Logo, precisamos salientar que a importância do esporte não era realmente uma razão para alguns homens começarem a escalar, mas que a importância para o montanhismo está no fato de que muitos membros da classe média britânica eram muito preocupados com esporte, como parte de um tipo de "Revolução Desportiva” que aconteceu no século XIX na Grã-Bretanha. Seu interesse no esporte tornou possível para algo como montanhismo surgir. O mesmo pode ser dito para lazer e férias.

Além da importância do esporte e lazer também pode ser visto o ponto de vista mais social. Mesmo que os homens (e mulheres, embora em menor quantidade) de todas as diferentes classes na Grã-Bretanha praticassem um ou outro esporte, o esporte prevaleceu. Certamente esportes como montanhismo (muitos montanhistas viram o alpinismo como um simples esporte: "Ainda que seja simplesmente um esporte como cricket, remo ou knurr e mágica, não tenho vontade de colocá-lo em bases diferentes", diz Leslie Stephen) poderiam ser unificadores de classes, assim como as possibilidades financeiras e a quantidade de tempo livre desempenharam um grande papel para as pessoas serem capazes de praticar este tipo de atividade. A possibilidade de criação de barreiras sociais através do esporte poderia ser vista como uma razão para a alta classe média começar a escalar nos Alpes. No entanto, isso não teve um grande papel para a "invenção" do montanhismo, pelo contrário, esta foi mais uma consequência da escalada do que uma real motivação para começar a escalar montanhas. A importância do esporte e lazer tinha mais a ver com o ideal de classe média alta, e o alpinismo ofereceu grandes oportunidades para tentar alcançar esse objetivo.
Agora, no final deste pequeno pedaço sobre história social, é importante retomar a parte anterior. O montanhismo moderno foi de certa forma "criado" por membros britânicos da classe média alta, a burguesia, como parte de sua criação de uma identidade de classe média alta, que foi criada para distinguir-se das menos favorecidas bem como das classes altas, e para reivindicar um papel importante na sociedade britânica (e que aconteceu já qie se tornaram o grupo mais importante em meados do século XIX na Grã-Bretanha). Dentro desse imperialismo a identidade e masculinidade tomaram um lugar central, enquanto esporte e lazer apenas desempenharam um papel menor para a criação de montanhismo. Montanhismo tem de ser visto como algo em que masculinidade, imperialismo, lazer e esporte, e todos juntos formam um conjunto perfeito e simbiótico.

As próximas razões não podem ser vistas como razões que realmente contribuem para a "invenção" ou o início do montanhismo moderno como o motivo anteriormente apresentado (razões sociais) teve. Devem ser vistos como coisas que prepararam o terreno para que estas pessoas da classe média fossem escalar quase todas as altas montanhas dos Alpes. Alpinismo já existia, já tinha sido 'criado', mas graças a razões como as apresentadas a seguir, o montanhismo poderia crescer e desenvolver-se rapidamente. Como eles não contribuiram, como tal, para o nascimento do montanhismo moderno, esses fatores serão tratados mais superficialmente.

Uma das razões mais importantes para o alpinismo se difundir foi o crescente poder econômico e financeiro da classe média alta. Assim como cresceu em importância a sociedade britânica durante o século 19, seu poder financeiro cresceu também. Este crescente poder financeiro tornou possível para muitos membros da alta classe média gastar dinheiro em esportes, lazer e férias. Ao mesmo tempo, a quantidade de tempo livre cresceu também. Assim, a combinação de um crescente poder financeiro e um aumento da quantidade de tempo livre fez com que muitos destes viajassem para os Alpes, e em muitos casos escalar montanhas. Um dos pioneiros da escalada de montanha, John Ball, poderia servir como um exemplo perfeito:”...[John Ball], um cavalheiro de lazer, trilhando o caminho familiar da universidade ao Bar e, em seguida, se dedicar às atividades úteis em que os homens de menos tempo e menos dinheiro não podem participar."

Outra razão importante pela qual alpinismo poderia desenvolver-se de 1850 em diante tinha a ver com o desenvolvimento e crescimento do transporte ferroviário. Melhores ferrovias possibilitaram a viagem rápida e confortável para os Alpes (e outros lugares). Considerando que uma viagem da Grã-Bretanha para os Alpes no início do século XIX levava muito tempo (cerca de cinco dias eram necessários para chegar à Suíça), levavasse apenas cerca de 20 horas para chegar lá na década de 1870. Esta melhoria permitiu enorme quantidade de pessoas viajar para os Alpes por um curto período de tempo, e, portanto, um grande grupo de britânicos foram capazes de fazê-lo. Não é apenas a velocidade melhorou, o mesmo pode ser dito do custo, que caiu tão rapidamente quanto a velocidade em que se desenvolvia. Graças ao número crescente de empresas de transporte ferroviário passageiros conseguiram comprar seus bilhetes de viagem a um preço mais em conta. É claro, isto possibilitou que mais e mais pessoas começassem a viajar e, novamente alguma parcela destas pessoas começou também a escalar.

Além disso, houve o aumento da quantidade de livros de viagens e guias. Estas informações representavam dados muito úteis para britânicos viajarem para os Alpes. Perto da informação "eles podiam também dar o empurrão final para empreender a viagem." Este era o caso especialmente com o montanhismo, diante de numerosos livros de viagens escritos por montanhistas, livros que foram publicados durante os anos 1850 e 1860. Para muitos homens a leitura desses livros poderia dar o empurrão final para o fato de viajar para os Alpes e escalar esta ou aquela montanha. O mesmo efeito veio de vários shows e palestras ministradas por alpinistas. O exemplo mais conhecido é Albert Smith e o show que ele havia criado em torno de sua ascensão do Mont Blanc, em 1851 (que era, na verdade, a única escalada que fez em sua vida, mas que não o impediu de criar o seu show). Passou dez anos realizando seu show atraindo numerosos espectadores, e assim tornando muitos homens entusiasmados com o montanhismo.
Isso foi muito importante porque a maioria das pessoas eram muito hostis em relação ao montanhismo, alpinismo para a maioria das pessoas era algo que simplesmente não se devia fazer, na maior parte do pensamento o alpinismo era viso como algo estúpido e perigoso:

"Enquanto ele estava na Suíça, descobriu que havia entre os nossos conterrâneos um Clube Alpino, a qualificação para a admissão no clube determinava que um homem deveria ter colocado sua vida em risco com o maior perigo possível. E destes somente aqueles que tivessem algum grande feito no montanhismo poderiam pertencer ao clube, como se pendurar sobre os precipícios mais perigosos e escalar rochas perpendiculares. Já o Clube dos Trabalhadores era completamente diferente, pois seu objetivo era manter seus membros longe de todo perigo possível, dando-lhes luz, salas quentes, uma sociedade aconchegante, e um monte de papéis para ler" (trecho retirado do livro A London Club for Working Men’, Em: Jornal do Reynolds,Londres, 28 de outubro de 1860, página 533.)

Muitos destes primeiros alpinistas foram recebidos com esta hostilidade como por exemplo Hudson e kennedy depois da sua ascensão sem guia de montanha no Mont Blanc, em 1856: "Eles nos culpam por ter arriscado nossas próprias vidas numa empreitada sem objetivo ou propósito, e agora estendendo para os outros qualquer incentivo para trilhar nossos passos;. Sarcasticamente dizem que temos de estar preparados para nos defender no Tribunal Penal contra uma acusação de homicídio” (trecho retirado do relato: Hudson C. e Kennedy E. S., "Onde há vontade há um caminho: uma escalada ao Mont Blanc por uma nova rota e sem guias", Londres, Spottiswoode & Co., 1856, p. VII). Shows e palestras, como por exemplo o de Albert Smith, eram muito importantes por esse motivo. Eles precisavam fazer o montanhismo ser bem visto. O mesmo propósito pode ser atribuído ao grande número de viagens e de guias de viagem escritos durante a "Idade de Ouro de Montanhismo”.

Antes de 1850, durante o tempo do chamado pré-alpinismo, a ciência era uma se não a mais importante razão para subir montanhas. Portanto, não seria incoerente supor que a ciência continuaria a ser uma razão importante para a classe média britânica começar a escalar. Certamente porque a ciência foi muito importante na sociedade britânica e, mais especificamente entre a classe média alta. No entanto, este não era o caso. A ciência foi importante no mundo do montanhismo, mas para quase nenhum alpinista britânico a partir de 1850, a ciência era a força motriz por trás de suas façanhas do montanhismo. O papel da ciência era outro. Em suma, a ciência foi usada para dar um propósito socialmente aceito para o montanhismo. Como vimos, a maioria das pessoas estava bastante hostil contra montanhismo porque era perigoso e simplesmente não tinha utilidade. Só o alpinismo em nome da ciência poderia gerar alguma aprovação, já que muitas pessoas pensavam que "qualquer falha que registrasse uma infinidade de fatos, números e datas, seria um passo para trás no dever social e moral”. Assim sendo, muitos dos montanhistas pioneiros alegavam que escalavam para a ciência, embora tivessem realmente razões completamente diferentes para fazê-lo. A ciência foi mais um sofismo do que um motivo real. O fato de que a maioria destes alpinistas fez algumas experiências científicas enquanto escalava tinha que ser visto de um ponto de vista diferente, como um dos companheiros de Albert Smith testemunhou em sua ascensão ao Mont Blanc: "Eu recomendo fortemente qualquer pessoa que tenha ambição de escalar o Mont Blanc a considerar bem antes de tentar uma expedição que pode não produzir bem algum para si próprio ou para os outros, e que a escalada é acompanhada de terrível risco..."

É nesta situação que a real importância da ciência está, e não como um motivo real para começar a escalar (vale reforçar que apesar disto, este foi o caso de alguns escaladores como por exemplo John Tyndall). Por outro lado, havia também alguns montanhistas que repudiaram esta abordagem científica, como Leslie Stephen quando disse: "E que observação filosófica você fez? Será o questionamento de um desses fanáticos que, por um processo de raciocínio para mim absolutamente impenetrável, de alguma forma irrevogável associaram viagem alpina com ciência?"
Levaria ainda muito tempo para a opinião pública mudar sobre a questão do montanhismo. Embora o elemento científico de fato diminuiu rapidamente do final de 1860 em diante, a opinião pública manteve-se bastante hostil e ainda levaria muito tempo para isso mudar. Vários acidentes graves, sendo o mais conhecido é claro o acidente fatal após a primeira escalada do Matterhorn em 1865 por Edward Whymper, durante a segunda metade do século XIX, só veio a fortalecer essa atitude hostil, muito bem representada por relatos de montanhismo em diversos periódicos:

"Entre aqueles que recentemente têm escalado nos alpes estão, sem dúvida, alguns homens da ciência, que têm um propósito na sua empreitada, habilidade e inteligência para faze-lo. Estes podemos honrar e aplaudir pelos riscos que correm na causa a que se dedicam. Mas o propósito científico inspira três quartos dos jovens que têm realizado a escalada alpina,(...), pela pura excitação do ato de escalar? Quantos por aí que escalam sem nem mesmo ter empolgação, mas simplesmente porque está na moda? (...) Não podemos assumir que a ciência ou as montanhas tenham necessidade de expedições fatais e perigosas dos londrinos inexperientes... “Alerta de perigo”, as pessoas dizem, é um conceito incompreendido pelos Ingleses. Mas não podemos pensar que a voz da opinião pública iria se provar totalmente ineficaz se, reforçando-se com a moral desta última chocante tragédia, protestaria contra um risco inútil e sem sentido de vida por parte de quem não tem objeto científico para buscar e, mesmo que tivesse, não têm inteligência apropriada para segui-lo".


Gravura da conquista do Matterhorn


No final desta breve análise histórica só há uma última razão (justificativa) para citar. É a última, embora possa ser a mais importante de todas. Essa é sobre as razões mais pessoais para as pessoas irem escalar montanhas, ou simplesmente estar nas montanhas. Estas razões são provavelmente as mesmas para os montanhistas na época, como são para os escaladores da atualidade.

Motivações pessoais são provavelmente o mais importante, porque sem esses motivos pessoais, apesar da importância da identidade de classe média com base em imperialismo e masculinidade, apesar da importância do esporte e lazer e outras razões sociais relacionadas, e apesar do crescente poder financeiro desses homens, homens (e mulheres) não iriam aos Alpes, e certamente não iriam escalar montanhas. Em suma, poderíamos dizer que: "Para entender o montanhismo, precisamos compreender o montanhista.

Ao pensar em razões pessoais, motivações como a religião, a aventura, sublime, a ciência (para alguns homens), a simplicidade, tranqüilidade, esporte, camaradagem, vêm à mente, mas esta lista é realmente interminável, já que todo montanhista de vez em quando tem suas próprias razões pessoais para a escalada.
Razões como essas são muito pessoais, mas, como dito, não menos importantes. Sem razões como estas nenhum britânico ou qualquer outro homem ou mulher de qualquer nação teria ido para os Alpes escalar tantas montanhas, vencer tantos passos de altitude ou cruzar tantas geleiras ou vales. Nas frases abaixo alguns montanhistas da "Idade de Ouro do montanhismo" tiveram a palavra para justificar o porquê eles foram para os Alpes escalar tantas montanhas:

Para ver de relance, a todo redor das mais estupendas barreiras da natureza, e estar presente, por assim dizer, no mesmo momento em dois diferentes vales, separados, que pertencem a diferentes reinos, onde diferentes línguas são faladas, e cujo fluxo de águas segue para mares diferentes, esta novidade da combinação entre elementos similares excita a imaginação, e dá origem a esse sentimento de admiração surpresa que as pessoas que possuam a mínima parte de temperamento poético geralmente sentiram em situações como esta".
(Forbes, J.)

...talvez ainda possa ser o meio de induzir um ou outro leitor a visitar os lugares, a memória da qual pode um dia ajudá-lo a suportar serenamente e gentilmente as provações da vida”.
(Wills A.)

O fato é que dá o encanto inexplicável ao montanhismo é a série incessante de cenários naturais únicos, que são na sua maior parte apreciados somente pelo alpinista”.
(Stephen L.)

Minha alegria estava na natureza, para respirar
o difícil ar do cume da montanha glaciada.
Onde as aves não ousam construir, nem insetos batem asas
Sobre o granito sem vida

(parte de poema de Alfred Wills)

Deixamos a Inglaterra no início de maio de 1866, com a esperança de escapar do vento frio que ainda permanecia em nossa primavera Inglesa, e para encontrar os Alpes inferiores em toda a sua beleza fresca, para nunca mais ser tão intensamente apreciado como no momento em que a última neve derrete sob uma hora de luz do sol, e muda, como em um passe de mágica, em flores e gramados.”
(Tuckett E.)

Ao tentar a escalada, estávamos apenas motivados pelo amor à aventura, com a esperança de quebrar o sistema exclusivo de Chamonix, e pelo desejo de tornar-nos familiarizados com a beleza e a topografia das regiões alpinas. Fomos ao exterior por lazer: foi o prazer que buscamos, e pensamos pouco sobre descobertas úteis. Verdade é, que o prazer era nobre e de caráter superior (...) relativos a, então, estas excursões de montanha como um alívio temporário de áruas tarefas ou confinamento entre quatro paredes”.
(Hudson C. e Kennedy E. S.)

E tantos outros…

Como tiveram sucesso dominando os alpes?

Por diferentes motivos, alguns britânicos da classe média alta foram para os Alpes, e começaram a conquistar quase todas as altas montanhas, glaciares e passos de montanha. Depois de tentar entender algumas dessas razões, outra questão vem à mente, como os britânicos conseguiram se tornar a força dominante nos Alpes durante a "Idade de Ouro de Montanhismo”, e por que não algum país alpino como a Suíça ou a Áustria? Isto é ainda mais notável porque a Inglaterra é mais ou menos um país plano. A primeira visão é notável que alguns ingleses foram para os Alpes para escalar, mas é ainda mais surpreendente que conseguissem se tornar a força dominante nos Alpes, muito à frente dos países de fato alpinos.

Uma das razões mais importantes que facilitou para que conseguissem tornar-se tão dominantes foi as deficiências estruturais dos países alpinos durante a década de 1840 até a década de 1860. Mesmo que as pessoas desses países quesesse escalar, a maioria deles não tinha possibilidade para tanto. Quase todas as nações européias estavam conturbadas pelas Revoluções de 1848 e suas conseqüências. Por causa dessas revoluções a maioria das pessoas estava mais ocupada com a sobrevivência ou com a tentativa de tirar o melhor proveito desta situação, enquanto essas revoluções foram seguidas por uma série de mudanças impactantes na sociedade. Portanto, não era muita gente que poderia "desperdiçar" dinheiro e tempo nas viagens, sem falar nas escaladas. Isso era algo com que a maioria das nações alpinas tinha que lidar. Além das revoluções de 1848, houve a “Sonderbundkrieg” na Suíça em 1848, a unificação e todos os outros problemas da Alemanha em 1871 e na Itália, o “Resorgimento” em 1861. Na França, houve a criação, declínio e queda do Terceiro Império, seguido pela guerra franco-prussiana de 1870-1871, enquanto a Áustria-Hungria foi abalada com inúmeros problemas com os movimentos nacionalistas de todos os cantos do império. Esta lista pode ir assim por diante. Fica assim bem claro que outras nações muito conheceram um desenvolvimento tranquilo e pacífico como a Grã-Bretanha e, portanto, eles não foram capazes de desenvolver atividades sérias sobre o domínio britânico nos Alpes durante os anos 1850 e 1860. Só mais tarde o domínio britânico iria começar a declinar em favor dos países alpinos (na maioria França, Alemanha e Áustria).

Esta pode ter sido uma das mais, senão a mais importante razão pela qual os britânicos puderam dominar os Alpes por aproximadamente 20 anos em meados do século XIX. Outras razões, além dessas de âmbito mais político, são perceptíveis a nível mais social e econômico. A Revolução Industrial, que começou no final do século XVIII, na Inglaterra, foi responsável pelo desenvolvimento e crescimento de uma classe social relativamente nova, a classe média. Esta classe média na Grã-Bretanha, como visto anteriormente, foi sem dúvida muito importante para a "invenção" do montanhismo. Entretanto no continente a Revolução Industrial aconteceu efetivamente apenas algumas décadas mais tarde, e por isso esta nova classe média sobressaiu igualmente mais tarde. Assim, em meados do século XIX não havia uma forte (financeiramente) e influente classe média no continente como havia na Inglaterra, e isto gerou consequências sobre o montanhismo nessas nações continentais. Eles só começam a escalar de 1860 - 1870 em diante, quando seu poder (principalmente financeiro/ aquisitivo) começou a crescer na sociedade. Este foi o mesmo momento em que a hegemonia britânica começou a enfraquecer.

Uma pequena observação importante tem que ser registrada. As duas razões que foram dadas aqui a respeito de porque os ingleses conseguiram se tornar tão dominantes durante a sua idade de ouro do montanhismo, é claro, não são todas as razões. Estas são apenas duas de muitas outras existentes, e a imagem construída neste texto, portanto, pode ser uma versão simplificada de um assunto muito mais complexo. Mas seria fantasiar demais ir muito mais a fundo para construir conhecimento sobre o assunto. Seria necessário analisar o desenvolvimento social e econômico das diferentes nações alpinas, e mais especificamente o papel das respectivas classes nessas sociedades. E isso significaria ir longe demais, entrar demais no mundo da subjetividade. Assim acabei dando duas razões, que parecem ser de grande importância no que diz respeito à questão proposta.

Conclusão

Depois da tragédia no Matterhorn em 1865 quase todos os altos picos alpinos foram escalados, na maioria por montanhistas britânicos e seus guias de montanha locais. A primeira escalada do Matterhorn marca o fim de uma era do alpinismo. Gradualmente, a influência e a dominação dos britânicos nos Alpes começa a diminuir, posição esta que foi tomada por alpinistas alemães, austríacos, italianos, suíços e franceses. Não só os alpinistas mudaram, a aparência do montanhismo também mudou. Considerando que a maioria dos montanhistas britânicos tentou explorar e conquistar de certa forma todas as altas montanhas, isto já não era possível depois que quase todos os picos foram escalados e explorados. Em vez de simplesmente escalar montanhas, os montanhistas mais e mais (especialmente os alpinistas de elite) começaram a procurar outras rotas mais difíceis, mais longas ou mais diretas sobre as montanhas. Um processo que ainda hoje acontece. De 1870 em diante o alpinismo se tornaria mais e mais popular, especialmente nos países alpinos. Uma simples olhada em alguns dados estatísticos relativos a números de associação de membros em clubes prova isto. O DÖAV (Deutscher und Österreichischer Alpenverein), por exemplo, tinha cerca de 100.000 membros em torno de 1900. As outras associações alpinas não eram tão grandes, mas em comparação com o número de alpinistas durante a década de 1850 e 1860, quando os ingleses dominaram os Alpes, os números ainda assim eram enormes. E assim alpinismo transformou-se de um movimento pequeno e elitizado a um movimento relativamente de massa. A distinção que montanhistas britânicos queriam fazer com outras classes sociais perdeu sua força e significância durante esta mudança, a medida que alpinistas começaram a chegar de todas as classes sociais.

Sabemos que somos uma pequena fatia da sociedade, e ser constantemente motivo de risos; respondemos assumindo que somos o sal da terra, e que nossa diversão é a primeira e mais nobre de todas as diversões”.
(Stephen L.)

Durante o último quarto do século XIX outra mudança ocorreu. Lentamente alpinistas ingleses começaram a trocar sua área de ação dos Alpes para outras cadeias montanhosas de todo o mundo, como os Andes, Caucasus ou Himalaia, onde ocorreu o mesmo processo. Explorando e conquistando, masculinidade e imperialismo mais uma vez foram alicerces do montanhismo britânico, fato que o Clube Alpino ainda hoje exalta:

La raison d’être de l’Alpine Club a toujours été de conquérir des voies dures et nouvelles. ... Si l’exploration des Alpes est terminée depuis longtemps, les members de l’Alpine Club continuent de réaliser plus de ‘premières’ que n’importe quel pays

Traduzindo: “O objetivo do Clube Alpino tem sido sempre conquistar novas rotas.(...) Se a exploração dos Alpes é longa, os membros do Clube Alpino continuarão a fazer mais inovações do que qualquer outro país."
(Bonhème P.)

Neste artigo, tentei dar algumas das razões para os membros britânicos da classe média alta começarem a escalar montanhas. Foram dadas razões sociais bem como políticas e econômicas. O Alpinismo foi "inventado" por estes homens de classe média alta a fim de fortalecer sua identidade de classe média, e por fim sua posição social, com a importante conseqüência de distinguir-se dos menos favorecidos, bem como as classes mais altas da sociedade britânica. Assim conceitos como masculinidade e imperialismo foram de grande importância. Embora, no fim, as razões pessoais indivuduais prevaleceram como motivos mais fortes.

Dentro deste breve artigo histórico nem todas as razões para o surgimento do montanhismo foram enumeradas e tratadas. Isso é simplesmente impossível dado o fato de que a lista é interminável e muito subjetiva. Não obstante, tentei escrever um panorama histórico razoável sobre o motivo pelo qual montanhistas britânicos começaram a escalar, e por conseguinte porque "criaram" o montanhismo como conhecemos hoje.

Sem dúvida pode ser dito que o montanhismo já existia antes de os britânicos chegarem, e, portanto, os britânicos não criaram montanhismo como tal, e é difícil discordar disso. Ainda assim, é sobretudo graças a esses pioneiros britânicos que o montanhismo se tornou da maneira que o conhecemos nos dias de hoje. Pela primeira vez na história o alpinismo se tornou de alguma forma organizado. Foi somente graças à fundação do Clube Alpino em 1857 que outra associação alpina seria fundada, e assim organizar o montanhismo, ajudando-o a se desenvolver e crescer rápido. O mesmo pode ser dito sobre as razões não-científicas que montanhistas britânicos deram ao alpinismo. Foi graças a eles que uma forma não-científica do alpinismo tornou-se socialmente aceita. Finalmente montanhistas britânicos foram capazes de difundir o montanhismo em todo o mundo, principalmente graças à quantidade incalculável de livros e guias sobre façanhas do montanhismo (incrivelmente bem escritos) publicados. Graças a eles os Alpes e os mais específicamente o alpinismo tornou-se conhecido por muitos. E assim sendo, creio que é correto dizer que em meados do século XIX, britânicos de classe média alta recém formada criaram o montanhismo moderno.


Autor: Koen Locke
Matéria em inglês com devidas citações e fontes bibliográficas utilizadas: http://www.summitpost.org/how-the-british-created-modern-mountaineering/713630

Abrazos a todos,

Parofes

terça-feira, 24 de maio de 2011

Nascer do sol de nosso quarto

Acordei agora pouco e chamei a lili correndo, ficamos fotografando o nascer do sol.

Olhem que beleza!
Foto já tirada com a G12 (panorâmica de 4 fotos)



Abrazos a todos

Parofes

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Nova câmera e nova marca d'água!

No final de semana não tive tempo de treinar com a câmera nova, a G12 que acabei de comprar. Então a opção foi leva-la ao trabalho hoje e na hora do almoço fazer alguns cliques no Parque da Água Branca, lugar ótimo para tanto com muitos insetos, animais e árvores bonitas. É claro, como ainda estou sendo apresentado à câmera, cliques bons mesmo só depois que eu me acostumar com ela. Por enquanto só testes mesmo.

Aí vão alguns testes, aproveitando pra estreiar a marca d'água nova!


Vi essa aranha no parque já faz semanas, dessa vez fotografei!


Fonte e arco íris


Raizes


Diego, figura com seu celular amarelo muito na moda que trabalha na ACF


Quando o sono bate, bate pra valer!


Abrazos a todos!

Parofes

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Fotos Jantar da Montanha 2011

Pessoal,

Um pouco atarefado e com problemas de saúde (contraí uma pneumonia por causa da viagem ao Paraná pro jantar!!!) posto rapidinho algumas fotos do final de semana passado no Paraná. As fotos envolvem o jantar da montanha edição 2011 e um passeio pelo Jardim Botânico de Curitiba.

Eu e lili pegamos um vôo sexta às 15:21 e pouco depois das 16:00 já estávamos no Afonso Pena esperando o Pedro. Quando chegamos na casa dele só largamos as tralhas, batemos um papo rápido e já saímos pro jantar.

Foi tudo ótimo, divertido pacas, mas já forcei a garganta falando alto o tempo todo por causa do barulho alto, acho que esse ano teve record de pessoas no jantar! Na manhã seguinte doeu um pouco mas logo passou. Na noite de sábado pra domingo é que ficou pior, acordei com bastante dor já mas não esperava tanta complicação posterior...

Quando descemos do avião já em São Paulo a coisa já estava meio que ruim. Comprei algumas coisas na farmácia mas ainda não esperava a porrada que veio.
Segunda não trabalhei de tão ruim, terça ainda tentei e acabei saindo mais cedo com calafrios de febre, quarta não trabalhei de novo e hoje estou aqui começando a melhorar graças ao comprimido sabonete (amoxicilina 500mg + clavulanato de potássio 125mg). Salvação contra a pneumonia que se instalou.

Foda é aguentar o cansaço pulmonar, a depressão, a respiração com assobio e o pior, cuspir os verdões durante o dia...Mas, tô começando a melhorar.

Foi ótimo: Rever o pessoal que não via faz um ano tipo: Natan e cia (nas nuvens montanhismo); Eliza (legal te ver de novo Guria, tá escalando muito hein!); Conhecer o Minhoca (Abraço cara); Conhecer o Waldemar e papear sobre montanhas e etnias asiáticas (Fica um abraço); Conhecer o Elcio (Abraço cara!); Rever a figura do Hilton e assistir um filme na casa dele com a Camila e lili roncando na sala kkk (Abraço cara e parabéns pela linda filha); Rever Camila e Rafael (Abraço pros dois); Rever a Lurdes e Ariane (bjossss); Fazer xurras de prima.

Não tem preço: Ver a Gretchen velha e acabada achando que ainda é gostosona. Voar junto da banda Raimundos, banda inteira. Todo mundo com cara de quarentão.

Lá vão as fotos:






Eu, Raul, Farofa e Pedro.


Waldemar, Pedro e eu.









Eu, Lili, Camila e Pedro na entrada do Jardim Botânico.

É isso aí, melhoras pra mim.

Abrazos

Parofes

terça-feira, 17 de maio de 2011

O que é fotografia em cut out?

Muitos de nós montanhistas somos fotógrafos não profissionais, mas de coração. A fotografia faz parte de nossa identidade “montanhística”. É nossa ferramenta para dar um “pause” no tempo e no espaço, guardando aquela vista para sempre na memória da caixola e da câmera fotográfica para posterior registro. Dentro do universo da fotografia uma modalidade me chama muita atenção. São os cutouts (ou cut outs). Vou falar um pouquinho sobre isso e deixar um rápido tutorial de como fazê-lo.

Cutout é uma forma de manipular uma imagem com a finalidade de distinguir um ou mais itens na foto como se estivesse entrando ou saindo dessa mesma foto, e uma boa forma de fazer isso é selecionar o seu objeto e transformar todo resto em preto e branco (tons de cinza). Um cutout cria uma 'suposição visual' que engana o olho e algumas pessoas realmente pensam que a cor está melhor, e foi melhorada pelo Photoshop, mas nunca foi. Aqui vai uma frase filosófica para se pensar: o que aconteceria ao preto se não houvesse branco? Resposta: Ninguém sequer sabe da existência dele, por pura falta de algo para comparação.

A razão pela qual escrevo este pequeno texto é simples: Somos montanhistas! Curtimos fotografia por essência. Algumas pessoas gostam muito do efeito e não sabem fazer. A grande maioria de profissionais de fotografia, penso eu, desaprovam o efeito. Posso entender que as pessoas pensam que é um jeito de mudar a foto em algo não natural em fotografia, tornando-se uma versão muito longe do que realmente foi visto naquele momento na natureza. Na verdade minha intenção é, como eu disse, apenas distinguir alguns detalhes na foto que eu acho mais interessante do que os outros, algo que eu goste de olhar e eu gostaria de compartilhar com outras pessoas.

Quem não se lembra do famoso cut out na cena de 'A Lista de Schindler'? A menina andando entre as pessoas sendo mortas no gueto? Ela estava com a cor vermelha em evidência para fazer-nos ver melhor. Esse é o motivo pelo qual eu faço cutouts.


Nunca faço uma cor ficar mais forte. O máximo que faço é transformar o que não importa para mim em tons de cinza, trabalho um pouco do brilho e contraste para essa área e é isso. Vou colocar aqui um rápido tutorial do método que eu uso para todo o processo, e vou mostrar alguns trabalhos já prontos, original e versão cut out, assim as pessoas podem ver que nada foi alterado. Claro, eu não sei muito sobre o Photoshop, eu não gosto de editar minhas fotos para melhorá-las. Eu só sei o que eu preciso saber, é isso e ponto final. Existe uma maneira correta de fazê-lo usando layers e outras coisas no Photoshop, supostamente mais fácil (provavelmente é mesmo hehehe), e é muito fácil de achar online no Google, rápido e em apenas alguns passos. Bem, eu gosto do meu próprio jeito de fazê-lo. Gasto mais tempo e cuidados pessoais com a imagem, mas me sinto muito bem fazendo.

Anos atrás a lili tinha uma câmera muito boa (Canon A430) que tinha a função de cutout, mas de uma só cor. Foi legal aprender a usar na época e sem Photoshop necessário de modo que a foto poderia sair pronta apenas com a câmera. Não era perfeito, mas o efeito era bom suficiente. Nos divertimos muito com essa ferramenta!

Enfim, aqui é o meu método humilde. Espero que vocês gostem.

Primeiro de tudo escolho a foto para trabalhar, ele deve ser uma foto com algum detalhe ou assunto que eu acho que vale a pena. É por isso que eu sempre uso fotos com insetos, flores e rosas, gotas de água... Abra a imagem usando o Photoshop. Depois disso, use a ferramenta de seleção rápida e selecione a foto inteira, tudo. Observe que há uma área piscando na foto inteira que mostra o que foi selecionado, tem que ser total.







Depois disso o que vem depois é muito, muito simples: pressione a tecla 'alt' (e mantenha pressionada!) para que o resultado da ferramenta de seleção fique em modo reverso. A partir de agora a ferramenta irá desmarcar tudo o que você clicar (lembre-se a tecla Alt deve estar pressionada). Olhando para a foto, clique sobre as partes que você deseja manter coloridas, e tem que ser um processo perfeito.







A terceira e última etapa é ainda mais simples, depois de desmarcar o que você quer deixar em cores, solte a tecla “Alt”, no menu principal clique em 'imagem', 'Ajustes', 'preto e branco'. PRONTO!



O trabalho está feito. Se você quiser, você pode melhorar um pouco o brilho / contraste e é isso, salve o arquivo.

Espero que gostem!

Abrazos

Parofes

domingo, 8 de maio de 2011

Fazendeira Pecuarista flagrada em caçada!

Ainda teve a cara de pau de dizer "É uma grande fêmea, muito bonita. E tava comendo minhas vacas aqui."

Azar nosso que a grande fêmea que ela não matou não comeu ela!!! Cretina miserável falsária!!!

Ela ainda recebia indenização em dinheiro por cada vaca que as onças matavam.

Fico impressionado e revoltado com isso.

Agora pergunto: POR QUE MONTANHISTAS SOFREM COM MEDIDAS PROIBITIVAS?????????
POR QUE ELA NÃO VAI PRESA? ACABEI DE VER NO JORNAL QUE ELA VAI SOFRER MULTA DE R$ 100.000,00. PORRA???????????????!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Ela não vai ser indiciada nem nada.

Piada...Depois me perguntam o motivo pelo qual não sou nacionalista.



Revolta.

Parofes.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Marins dá gases!

Olha vou contar uma coisa pra todos, se tem uma montanha que adiei por muito tempo foi esta. Nos últimos 45 meses marquei “N” vezes pra fazer a travessia Marins – Itaguaré, uma das mais tradicionais pro montanhismo nacional, mas nunca rolava por algum motivo. Cancelamento meu ou da companhia, da carona, tempo ruim, falta de grana, enfim, alguma coisa sempre atrapalhava. Desta vez não atrasei mais, entretanto a pendência do Itaguaré continua! Uma segunda visita ainda este ano tem que rolar. Em relação ao título do relato, bem, a explicação será evidente no decorrer da leitura!

Não preciso nem explicar pro pessoal que acompanha o altamontanha ou meu blog alguma coisa sobre a travessia. Muita gente começa a vida do montanhismo lá e talvez por isso mesmo se apaixone e nunca mais abandone levando em consideração a beleza do maciço que realmente impressiona. Até apostaria que sim. A travessia Marins – Itaguaré dispensa apresentações, o nome fala por si só. Aliás, engraçado eu falar sobre a tradição da trilha logo de cara no começo do meu texto, vi lá o Wagner do CAP com vários alunos do curso básico de montanhismo. Daquele grupo aposto que alguns talvez fiquem traumatizados e nunca voltem à atividade, mas outros certamente irão “seguir carreira” nas diversas montanhas que temos por aí.

Pedro e eu marcamos com antecedência a investida, pelo menos duas semanas. De última hora a Camila conseguiu se juntar a nós e assim sendo o final de semana ficou bem legal pra todos nós, como sempre, muito divertido e agradável.

O começo foi muito cansativo como não poderia deixar de ser. O Pedro saiu de Curitiba por volta de 20h30minh e só chegou à minha casa 02h30minh da manhã! Já chegaram sonolentos e partimos todos meio que zumbis. Camila dormiu e eu e Pedro ficávamos conversando o tempo todo pra evitar que ele caísse no sono conduzindo o carro. Quando paramos na estrada pra comer um café da manhã no arco-íris eu já estava perdendo a batalha com o sono, era difícil manter os olhos abertos ainda mais puxar assunto. Ainda bem que nessa hora revezei com a Camila que passou pro banco dianteiro e eu fui pro traseiro pra dar uma cochilada. Não adiantou muito (risos), eles começaram a contar piadas um pro outro e acabou que só dormi entre trinta e quarenta e cinco minutos, as risadas me chamaram atenção e acabei entrando na brincadeira.

Chegar à fazenda já foi um martírio, ficamos bem perto de desistir por causa da estrada cheia de lama e a falta de um 4x4 pra subir aquilo ali. Como escutei o Pedro xingar o carro...risos.

Acabou que com algumas insistências o batmóvel conseguiu superar os obstáculos e chegamos lá. Fomos recepcionados pelo Milton e começamos a bater papo. Foi nesta hora que conhecemos o pessoal do CAP e alguns de seus alunos, todo mundo pronto e muito animado pra começar a pernada.

Demoramos bastante até pra começar a andar e pra ser sincero nem me lembro o horário exato que começamos, tinha muito sono. De qualquer maneira, depois de alguns passos e só umas quatro ou cinco curvas de trilha rumo à estrada que nos levaria até o morro do careca, eu já gotejava suor. Nossa que calor fazia... Levamos exatos quarenta e cinco minutos até o morro do careca onde nem paramos, seguimos subindo. Mais um pouco e chegamos ao primeiro mirante já nos 1.900 metros de altitude. Ali sentamos para um lanche/ café da manhã e hidratação. Dois minutos parados foi suficiente pro vento dar frio, mas mesmo assim ficamos parados ali bons quinze minutos, até sermos alcançados por alguns membros do grupo do CAP. Levantamos e continuamos a subida.

O calor aos poucos foi amenizando conforme ganhávamos altitude e nuvens insistiam em ficar sobre o maciço. Até lenticular sobre o Marins teve! Mau sinal, mas que desta vez não foi indicativo efetivo de mau tempo, pois nada rolou. Ganhamos distância dos grupos avançando com mais velocidade e rapidamente passamos pelo último cocuruto acima do careca, se não me engano o segundo. Dali em diante teríamos que contornar o próximo morro pela esquerda e o fizemos. Ali a altitude já era em torno dos 2.100 metros.

Passamos por este morro e ali estava, o último obstáculo pra entrarmos de vez na zona de crista do maciço do Marins e Marinzinho. Ali a subida também é pela esquerda, e assim fomos seguindo o excesso de marcações nas rochas, desnecessárias é claro já que a trilha é muito bem batida a todo tempo.

Chegamos ao crux da trilha, um meio trepa pedra meio escalada de uns quatro metros de altura. Ali deu um pouquinho de trabalho porque foi difícil pra Camila subir com mochila. O problema foi ela começar com a mochila e ficar com dificuldade do próximo movimento já no meio do caminho. Tive que deixar minha mochila e pegar a dela enquanto o Pedro ficou abaixo dela pro caso de uma queda. Depois disso ela subiu sem problemas.

Avançamos os metros finais e finalmente chegamos ao topo desse morro que dá acesso a crista. Tivemos a primeira visão do Marins e Marinzinho, um vale fantástico no meio deles cuja altitude varia entre 2.200 metros e 2.250 metros. Fiquei sem fôlego pela esticada final e pela vista. Deveria ter subido esta montanha anos atrás. Privei-me desta vista por muito tempo! Tudo lindo demais...

O vento seguia muito forte e em alguns momentos acredito que facilmente dava entre 50 e 60 km/h. Ventava muito. Atravessamos este vasto cume e seguimos até a descida oposta dele adentrando de vez no vale. Atravessamos o charco que ali fica e chegamos a um pequeno espaço de acampamento que pode ser categorizado como perfeito. Um espaço que comporta confortavelmente três barracas, completamente plano e de terra. Água potável a apenas 50 metros de distância e cercado de mato alto, o que oferece alguma proteção contra vento. Não muita, mas alguma. A altitude desse local é de 2.240 metros.

Escutei falar muito sobre a trilha do Marins, e sempre comentários de dificuldade. Não vi nenhuma dificuldade na trilha até lá. É bem batida, tem marcações até demais, e poucos lances expostos. Com atenção e cautela é até fácil demais. Chegamos lá cedo e tivemos o resto do dia pra fazer nada. Então depois do almoço tiramos um cochilo pra tentar amenizar os efeitos da privação de sono pra todos.

Aparentemente não foi suficiente. Combinamos de levantar às 17:00h pra subirmos o Marins e ver o pôr do sol do cume. Levantei na hora e chamei o Pedro, nos preparamos e quando chamamos a Camila, ela perdeu pra preguiça, sono. Não quis ir. Então tocamos pra cima só nós dois, as câmeras e as lanternas pra descida.
A subida é fácil também, o desnível é pouco, então contamos com a sorte subindo sem pressa parando pra fotografar diversas vezes. Acabou que demoramos mais que o programado por causa de tantas paradas e acabamos vendo o pôr do sol ainda abaixo do cume, a cerca de 2.340 metros. Mesmo assim, que pôr do sol...Belíssimo! Fizemos diversas fotos do céu pintado de vermelho. Antes da subida final, de cara pras rampas da montanha, consegui uma foto de alpenglow no Marins! A rocha estava laranja – vermelho de tão forte que estava a cor da luz solar. Bonito demais.

Chegamos ao cume depois de 45 minutos que deixamos o acampamento. Estava escuro já. No topo só encontramos o Faustino, natural de Mogi das Cruzes e que começou a subida conosco. Estava lá sozinho com o Buddy, cão do Milton da fazenda! Fizemos mais algumas fotos lá no topo, alguns vídeos. Pedro mediu o cume e encontrou 2.427 metros de altitude. Conversamos por um tempo com o Faustino (deixo um abraço) e já na escuridão total começamos a descer.

Sair da parte mais perigosa durante a noite (as rampas) foi fácil. Paramos no acampamento do pessoal do CAP, instrutores e alunos, e batemos um longo papo com o Wagner (fica aqui um abraço também). O trabalho maior foi sair dali até o acampamento. Nos perdemos por causa da escuridão total e não sei, talvez pela mudança de pressão o GPS não estava muito fácil de interpretar. As vezes íamos pra um lado e ele apontava a trilha pro outro. Voltávamos e ele apontava pro outro lado. Ficamos deliberando e perambulando ali por quase meia hora até que finalmente conseguimos reencontrar a trilha, já perto das barracas, só cerca de 150 metros em linha reta.

Ainda esbarramos com mais gente subindo, um trio. Um deles me conhecia e elogiou minhas fotos, olha que legal. Era o Gerson do site marinzeiro (www.marinzeiro.com). Mais um abraço registrado!

Chegamos à barraca e a Camila já tinha chegado à conclusão de que deveria ter nos acompanhado até o cume. Observou a iluminação do pôr do sol na montanha e percebeu quão bonito foi o espetáculo! Mostramos os registros e ela viu como foi. Realmente, preciso voltar ao Marins com mais calma!

Daí pra frente já preparamos nosso jantar, comemos papeando e não sei de onde veio o primeiro barulho, mas um problema seriíssimo de escapamento de gás natural começou na montanha. A cada escapamento, cujo som vinha ora de uma barraca ora de outra, uma sessão de gargalhada cortava o som do vento incessante na montanha. Estávamos sós ali então não tinha pudor, virou zona mesmo kkkkk...o vazamento na minha barraca continuou a noite toda, não sei do lado de lá.

Acordei pouco depois das três da manhã com a barraca balançando, como acordei assustado cheguei a pensar “onde estou?” com aquele vento andino. Segundos depois lembrei que estava na Serra da Mantiqueira mesmo! Nossa, como ventava. O barulho do vento na minha barraca era tão alto que eu não consegui dormir mais. Estava apertadaço pra urinar, mas ficar dentro da barraca naquela ventania era muito mais agradável (mesmo apertado) do que ir do lado de fora regar as plantas no vento. Ainda me arriscava a tomar um banho.

Contei ovelha, virei pro lado esquerdo, pro lado direito, repeti o processo tantas vezes que perdi a conta. Olhava pro relógio de dez em dez minutos achando que meia hora no mínimo tinha se passado, que decepção! E a ventania rasgava a relva lá fora...

Finalmente, depois de setenta e sete horas nas minhas contas, apenas três no relógio, levantei em definitivo e chamei o Pedro e a Camila. Recebemos na noite anterior a péssima notícia de previsão de chuva pro domingo, então nossa intenção de ir de ataque até o Itaguaré e voltar foi abandonada. A Camila não iria, então a deixaríamos sozinha por muito tempo lá até voltar provavelmente sob chuva.

Nossa opção não menos bela porém consideravelmente mais próxima foi ir ao Marinsinho de ataque e na volta subir o Marins com a Camila. Depois de um farto café da manhã e mais escapamentos com respectivas gargalhadas, começamos a caminhar pra subir o pico. Aliás, penso que o Marinsinho deve ser reconhecido como um pico. A distância em linha reta do cume do Marins pro Marinsinho é de 1.2 km, o vale que os separa chega a ter 400 metros de profundidade. Uma grande falha corta a encosta do Marins e passa mais abaixo do topo do Marinsinho, muito abaixo. Visto do Marins o Marinsinho mais parece o Pico Paraná, um outro maciço que se ergue da crista e atinge 2.394 metros de altitude.

No topo entre os boulders há uma placa indicativa que dá a altitude errada de 2.432 metros. Oras, se o Marinsinho tivesse 2.432 metros, por que chama-lo de Marinsinho e não de Marins (que tem na lista oficial furada do IBGE 2.420,7 m e na medição do Tácio 2.434 m e na do Pedro 2.427m)? Enfim...

Ficamos ali um bom tempo só fotografando e curtindo o visual quase que inacreditável. Nos esforçando pra ficar de pé lutando contra o vento que dava uma sensação térmica bem fria, depois de uns vinte minutos, começamos a descer. Ainda na descida acordamos em dinamizar nossa descida. O Pedro levaria a Camila ao Marins e eu ficaria encarregado de desmontar o acampamento. Em meia hora chegamos lá, eles subiram o Marins e eu fiquei pra trás. Recolhi água, purifiquei com clorin e comecei a arrumação do nosso “condomínio”.

Arrumei tudo, desmontei as barracas, coloquei lona no sol pra secar, preparei minha mochila e enquanto esperava pelos dois ainda fiz algumas fotos e vídeos. Chegaram quase uma da tarde com fome. Falaram tanto de comida que resolvi almoçar também!

Então preparei minha última feijoada pra compartilharmos junto de açaí liofilizado e suco de jabuticaba. Uma farofa do Pedro completou a feijoada que virou o bate-entope mais saboroso da História. Um banquete a 2.240 metros de altitude, ainda sob ventos fortes. Ainda na refeição continuaram os vazamentos de gás natural. Que ironia, chegando a São Paulo mais tarde naquele dia encontrar gás pro carro seria um problema kkk...

Começamos a descer tranquilamente exatamente às 13:45h. Já estávamos completamente sós na trilha e apesar de previsão dar chuva e a pressão estar muito baixa desde sábado pela manhã, nada aconteceu. Ao contrário do previsto, o céu estava limpo com poucas nuvens e o sol torrava o couro. Fazia frio lá em cima, mas a partir do momento que baixamos da linha dos 2.000 metros, já com contato visual do morro do careca, o calor maltratava. Chegando ao morro do careca a 1.800 metros nos apressamos pra chegar à fazenda, sair do sol era tudo que importava a essa altura do campeonato. Eventualmente alguém descia mais rápido impulsionado com o vazamento de gás natural, mas isso fez parte de todo o final de semana praticamente então não tinha reclamação, só risadas!

Após exatamente 150 minutos de descida chegamos à fazenda, onde bebemos uma latinha de coca-cola batendo papo com o Milton. Troquei de roupa por uma muda limpa que deixei no carro, ainda ficamos lá por mais ou menos uma hora conversando com ele. Até que quase seis da noite descemos em definitivo a Serra.

Pela estrada a luta pra encontrar um posto com GNV disponível, não satisfeitos com a busca, parando em um posto que encontramos o gás, resolvi contribuir com o abastecimento. Abri a porta do carro e deixei o vazamento rolar. O Pedro voltava pro carro e parou já na porta. Havia um gambá morto no carro! Ninguém aqui faz idéia do cheiro que tomou conta do carro. Saímos todos de dentro às gargalhadas, ninguém entendia de onde vinha tanto gás natural, não acabava!

E assim foi até chegar a São Paulo. O Brasil precisa investir uma grana em um gasoduto novo, muitos, muitos vazamentos kkkkkkk...

Pedro me deixou lá em casa e voltou pra estrada com a Camila. Eu estava exausto de sono acumulado, com algumas dores musculares, mas feliz. Finalmente pisei no cume do Pico do Marins. Ainda fico devendo o Itaguaré, mas a montanha sempre estará lá na próxima semana. Se eu fizer tudo que preciso fazer correndo, não sobra nada pra depois certo?

Fiz fotos lindas ao longo desses dois dias. Algumas delas...

Videos e fotos:




















Na subida...



Pouco antes de começar o pôr do sol.



Alunos do CAP fotografando o pôr do sol.



Panorâmica: Marinsinho, Pedra Redonda e Itaguaré. Visão desde a subida do Marins.



Parece photoshop não? Do jeito que saiu da câmera montei a panorâmica e taí o resultado. Que luz...



Pôr do sol 1.



Pôr do sol 2.



Cume do Marins. 2.427 metros. Eu.



Cume do Marins. 2.427 metros. Pedro.



Barraca do Pedro a noite.



Estreiando luva nova. Veio de um amigo do Summitpost, Radek, Estados Unidos.



Depois do café da manhã, antes de subir o Marinsinho. Fazia frio!



Auto-retrato no cume do Marinsinho.



Pedro e Camila no cume do Marinsinho a 2.394 metros. Ao fundo a parede do Marins.



Nosso acampamento.



Bonita esta flor rasteira, não sei o nome.



Camila e Pedro descendo do Marins.



O Marins!


É isso aí, espero que curtam.

Abraços a todos!

Parofes

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Morte de Bin Laden

Foi anunciada hoje mais cedinho a morte do Bin Laden.

Finalmente o governo norte-americano conseguiu apagar os registros (pelo menos acha que o fez) dos negócios de longa data da família Bin Laden com a família Bush.

E agora, em quem eles vão colocar a culpa dos próximos atos terroristas?

Link da notícia: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/05/obama-confirma-morte-de-osama-bin-laden.html

Piada esse país viu, piada.

Em breve relato do fds com muitas fotos bonitas!

Abraços a todos,

Parofes